A influência dos especialistas na economia brasileira

Folha de S. Paulo

O Brasil passou por várias crises nos últimos anos, a maioria sem justificativas convincentes. Não vamos falar do período anterior ao Plano Real e sim a partir dele.

A implantação do Real foi um sucesso! Trocamos nossa moeda com eficácia, em tempo recorde e sem nenhum trauma, fato que, com justa razão, nos encheu de orgulho. Mas, a partir desse sucesso inicial passamos a cometer uma série de equívocos.

No governo Collor já tínhamos colocado fim às barreiras alfandegárias, fato esse que, isoladamente, permitiria a entrada dos produtos importados em excelentes condições de competitividade; esperava-se com essa concorrência um aumento da produtividade industrial e agrícola, melhoria da qualidade dos nossos produtos e redução nos seus preços. E a partir da implantação do Real, no início de julho de 1994, um fato inédito e não previsto por nenhum economista brasileiro começou a tomar corpo: a valorização da nossa moeda em relação às demais. E se não bastassem esses dois fatores, o governo adotou a política de manter elevadas nossas taxas de juros com o objetivo de controlar a inflação e atrair maior volume de capital estrangeiro, o que realmente aconteceu. Nossas taxas reais de juros, que há muitos anos já eram das mais elevadas do mundo, tornaram-se imbatíveis! Com esse trio, escancaramento às importações, valorização excessiva da nossa moeda e taxas reais absurdamente elevadas, a indústria e a lavoura passaram a enfrentar dificuldades crescentes com a concorrência desleal – porque mal planejada – dos produtos importados. Resultado: redução da produção voltada para o mercado interno e principalmente externo, fechamento de empresas, desemprego, redução da renda global e consequente recessão.

Os problemas que se sucederam em nossa economia foram decorrentes principalmente das medidas citadas. Por isso, entendo que não procede a afirmação generalizada de que as crises brasileiras ocorridas em setembro/97, outubro/98 e janeiro/99 tiveram como causas as crises ocorridas, respectivamente, na Ásia e na Rússia, sendo a última atribuída inicialmente à inadimplência mineira, a chamada crise do “pão-de-queijo”. A verdade é que essas crises aconteceriam naturalmente no Brasil, mesmo que não houvesse um único país em crise no
mundo! Foram causadas principalmente pelos equívocos – para usar um termo mais ameno – cometidos no planejamento e na condução das políticas monetária e cambial.

O tempo passou, resolvemos ou minimizamos alguns problemas, como o da valorização da nossa moeda, surgiram ou acentuaram-se outros como o crescimento da dívida interna, mas os demais continuam. E entre estes, os que mais preocupam atualmente é o tamanho da taxa de juros e a vulnerabilidade da nossa economia em relação aos acontecimentos internos e externos, muitos deles imaginários ou fabricados.

Todos, com raríssima exceção, concordam que as nossas taxas de juros são elevadas e têm que baixar. Entretanto, existe uma enorme resistência à sua efetivação. Com base no noticiário do dia-a-dia tem-se a nítida impressão que as políticas monetária e cambial são fortemente influenciadas por profissionais – economistas, técnicos, executivos – que atuam em setores específicos do mercado brasileiro. Um exemplo típico se refere às opiniões, quase unânimes, para justificar eventuais alterações na Taxa Selic, amplamente divulgadas pela imprensa antes das reuniões do COPOM.

Entre os acontecimentos externos “importantes” que afetam diariamente a nosso mercado financeiro e de capitais, é impossível não mencionar a Argentina, fonte inesgotável de razões para as nossas crises. Fico até com a impressão que se os problemas vivenciados pelo nosso vizinho até a um ano atrás tivessem ocorrido no Brasil, teriam feito menos estragos na nossa economia. Estou convencido, também neste caso, que a nossa preocupação sempre foi, e continua sendo, exagerada. E explico. Até janeiro de 1999 a Argentina, que continua tendo no Brasil o seu principal aliado comercial, canalizava para o nosso país quase um terço das suas exportações; com esse grau de dependência, é evidente que a economia argentina teria que sofrer, como realmente sofreu, as consequências negativas da desvalorização da nossa moeda ocorrida naquela época. Já a dependência comercial do Brasil em relação àquele país é bem menor: exportávamos cerca de 13% do total, caindo atualmente para um pouco mais de 10%.

Parece que tudo de mais grave que poderia acontecer para a Argentina, já aconteceu. Em relação à economia desse país, não existem hoje, para o mercado brasileiro, razões suficientes que justifiquem quedas prolongadas nas bolsas de valores, flutuações exageradas na cotação do dólar e manutenção de taxas de juros em níveis tão elevados.

Há outros fatores externos citados com frequência para justificar crises passadas e futuras: o preço do petróleo e as perspectivas da economia americana. Com relação ao petróleo, os preços sempre oscilaram, e vão continuar oscilando, em função de acontecimentos políticos ou de conflitos entre países, produtores ou não. Esses problemas, por serem rotineiros, não deveriam mais ser tão valorizados. Quanto às perspectivas da economia americana, em que pese a sua importância para o mundo, tem recebido dos nossos analistas um destaque exagerado. Basta analisar os efeitos reais causados pelos atentados terroristas de setembro do ano passado, tanto para na economia americana como brasileira, e comparar com tudo aquilo que foi divulgado na época. Era o apocalipse!

Por fim, uma observação. É imprescindível que os economistas e demais estudiosos e especialistas em assuntos econômicos e financeiros, que têm entendimento diferente do que vem sendo sistematicamente divulgado, venham a público para externarem suas opiniões. É salutar que também haja no Brasil concorrência sobre a interpretação técnica e científica dos fatos econômicos.

Publicação: Folha de S. Paulo